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Cinema novo, Glauber Rocha e merda

Ipojuca Pontes

Um integrante da turma do Casseta e Planeta, Marcelo Madureira - um sujeito talentoso, por sinal – afirmou em debate público travado no Cine Odeon, no Rio de Janeiro, que “Glauber Rocha é uma merda”. Bem entendido, não propriamente o temerário cineasta baiano, mas os seus filmes tidos pelo entourage cinemanovista como intocáveis.

Depois, em carta enviada ao Segundo Caderno de “O Globo” (11/04/08), Madureira explicou-se melhor: considera as fitas de Rocha “mal filmadas, mal dirigidas, onde tudo parece ser feito meio nas coxas e com umas alegorias, por vezes, primárias”. No arremate, foi veemente: “Sempre achei todos muitos chatos; enfim, para ser bem impressionista, uma merda mesmo”.

Um dos señoritos da corporação estatizante, o velhíssimo Cacá Diegues, justamente o mais badalado, se insurgiu contra a declaração, considerando-a “um desrespeito”. Para o ele, tachar de merda os filmes do finado cineasta “é uma agressão desnecessária”.

Ora, se existiu um sujeito desrespeitoso e agressor na história do cinema, a merecer reprimenda permanente, este é justamente Glauber Rocha, conhecido pelo destempero verbal. Basta conferir nos anais do movimento inconcluso: atacando pessoas, coisas e instituições, o guru baiano, com ou sem razão, se esmerava num palavreado tão sujo que a expressão “merda”, por ele frequentemente usada, podia ser entendida como uma jóia de delicadeza verbal.

Para se ter idéia de como funcionava a coisa, à época, basta mencionar o seguinte: certa vez, no Bar da Líder (ponto da patota do Cinema Novo, em Botafogo, Rio) um roteirista cinematográfico da velha-guarda, Ítalo Jacques, depois de fitar o genioso diretor nos olhos, cumprimentou-o assim: - “Como vai, Boca Podre?”

Glauber Rocha, no auge da sua intempestividade político-ideológica, se acreditava o “Che” Guevara do cinema. Sem conhecer Marx, ou conhecendo apenas por meio de comentadores, passou a enxergar o mundo sob a estreita ótica do materialismo dialético, a mixórdia marxista chupada da dialética hegeliana, cuja síntese histórica (ultrapassagem), no entrechoque da tese (imediação) com a antítese (mediação), permanece até hoje sem comprovação.

Seus mentores intelectuais, pela ordem, eram: um advogado sindicalista baiano crente na história movida pela eterna luta de classes (Walter Silveira); um professor trotskista da USP siderado pelos filmes de propaganda soviéticos (P. E. Salles Gomes) e um panfletário crítico de cinema da linha djanoviana-stalinista, cujo objetivo era “destruir Hollywood” (Alex Viany).

Em pleno efervescer da revolução cubana, logo transformada numa ditadura comunista impenitente, o desbocado Rocha, impulsionado pela distinção européia de “Barravento”, um filme “naif”, partiu para a razzia do cineasta radical. Estabelecendo-se na praça como “enfant terrible”, armou-se cedo do conveniente arcabouço conceitual do “cinema de autor”, celebrado nas páginas do “Cahiers du Cinéma” pelo oportunismo maroto da “nouvelle vague” francesa.

A partir daí, instalado no beco sem saída da vanguardismo desenfreado, elevou aos cornos da Lua a crença de que não existia “arte revolucionária sem forma revolucionária”. Para completar, mordendo a isca do cinema “épico-didático” reclamado por Stalin ao mitificado Eisenstein, e ainda impregnado pelos “damnés de la terre” do terceiro-mundista (fanático) Franz Fanon, caiu na exasperação da estética do caos, vertente natural do que tinha como a “dialética da violência”.

Decerto que Madureira, não vivendo sob a pressão da impostura intelectual dos anos 1960, está com a razão: os filmes de Glauber Rocha, todos eles, são chatíssimos, além de intencionais – feitos nas coxas para “provar” alguma coisa.

“Deus e o Diabo na Terra do Sol”, pela grandeza dramática da paisagem evocada por Euclides da Cunha e a força vulcânica dos tipos sociais levantados por Zé Lins do Rego - beatos e cangaceiros - escapa, em alguns instantes, da amolação geral. Mas “Terra em Transe”, um “ideograma chinês de cabeça para baixo”, no dizer de Nelson Rodrigues, é sem dúvida o mais ininteligível embuste “autoral” jamais concebido sob a forma de “cinema político” - e sobre o qual o próprio realizador, ao cabo de uma exibição, confessou “não ter entendido nada”.

Já “A Idade da Terra”, gerado num estágio de pré-loucura, quem sabe provocado pelo consumo freqüente da cannabis sativa, é caso para investigação mais acurada de como uma mente criativa pode chegar à completa desintegração. Nele, radicalizando o seu código autista de percepção da “realidade terceiro-mundista”, o gênio baiano, no exercício sádico da “montagem nuclear”, atinge o paroxismo da desarticulação cinemática, cujos critérios artísticos inconfessos são os de levar o raro espectador ao puro masoquismo.

De fato, no apelo insondável do “novo pelo novo”, como proposta estética, a vanguarda da vanguarda não cria a beleza socialmente perceptível, não faz arte e muito menos a incensada revolução. No máximo, promove o caos.

O resultado de tudo é que a platéia, mesmo a que procura no cinema mais do que lazer, deu às costas aos filmes glauberianos.

E, junto com eles, aos filmes do cinema novo, menos radicais, mas igualmente empenhados em fazer do espectador uma cobaia de suas malogradas experiências estéticas e pretensões revolucionárias. “O diretor é genial, mas o filme é uma merda” – foi mais ou menos o mote que se tornou público, veiculado no auge do movimento pelo próprio “Pasquim”, o tablóide da esquerda etílica.

Na ausência de bilheteria para produzir filmes cada vez mais insolventes, o Cinema Novo, depois de um pacto com o general Golbery, apropriou-se da Embrafilme, empresa criada pelo contragolpe militar de 64 com objetivos da cooptação política.

O dinheiro passou a correr fácil, e de revolucionária a corporação do CN transformou-se numa aristocracia parasitária (burguesa) com todos os privilégios e nenhum dever – aristocracia que o governo Lula sustenta hoje com empenho e malícia. Quer dizer, uma merda, sobretudo para o contribuinte.

 
Midia Sem Mascara
 
 
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